segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Criançando

"For today I am a child
For today I am a boy."

Antony and The Johnsons

Minha vó até riria se eu dissesse a ela. Quanta pretensão falar isso aos dezenove. Mas tem os estudos, os favores, o trabalho, o amor. E sei que a lista só tende a aumentar. Como é trabalhoso trabalhar. E mais trabalhoso ainda é amar. Construindo e desconstruindo minhas tarefas, vou seguindo bem. Mas chega uma hora que me canso. É, vó, hoje não quero fazer nada, que nem criança. Mas você ainda é criança. Haha, quem me dera.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Fácil demais

De longe, era a mais bonita que vi. E ela me olhava mais parecendo uma ninfeta pura que prostituta. A puta então veio até mim, me abraçou, e com sotaque bahiano, Bento, quanto tempo!, Mas meu nome não é Bento. Ela ficou vermelha, me pediu desculpas, saiu de perto confusa, me apaixonei. Mesmo sabendo que Bento devia ser algum cliente parecido comigo, perguntei quem era. Meu primo, ela respondeu, não o vejo há muito, Você é de onde?, Interior da Bahia, E o que faz aqui?, Sustento meu filho, Verdade? Não tem cara de mãe, Mãe não tem cara, só tem coração. Tive vontade de rir. São poucas as vezes que converso com gente de mau gosto. Não estava preparado para ouvir uma frase brega, mas reparei que, de certa forma, era muito verdade. Verdade demais para ser verdadeira. Porque, de verdade, você tá aqui fazendo isso?, Sustentar meu filho, já falei. Ela olhou para baixo, ensaiou uma saída, mas continuou ali parada parecendo querer conversar mais. Diz a verdade, vai! Ficou me olhando calada por três segundos, deu um passo à frente, É que eu me apaixono fácil. Esse é o modo que eu achei pra me esquecer deles, Por que esquecer?, Porque eles nunca ligam no dia seguinte, Você se apaixonou pelos caras errados, Talvez, E funciona?, O quê?, Esse seu jeito de esquecer, Às vezes. Os seus dedos do pé esquerdo moviam-se rápido sobre o salto-alto preto. Você tem mesmo um filho?, Não, Falar que tem filhos não é uma boa forma de conseguir clientes, Você não é um cliente... tenho que trabalhar, Espera! Se eu disser que também me apaixono fácil e que estou louco pra ficar com você, acreditaria em mim? Por um momento, ela me pareceu sem reação, mas logo coçou a cabeça, Acreditaria, E o que você vai fazer então?, Dizer que também estou apaixonada. A puxei pra dentro do carro, comi, não liguei no dia seguinte.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

pausa

crise criativa.
volto em breve!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Reflections of a Skyline

http://www.youtube.com/watch?v=V08Mt35MSis
e só.

domingo, 1 de junho de 2008

Lugar comum

O que pode ser mais clichê que escrever sobre não saber o que escrever? Pois aqui estou me rendendo à falta de criatividade. Não pense lá que estou sem assunto, não é esse o motivo. O motivo é que às vezes não sei como é que posso expor algum tema. Como passar pro word esse emaranhado de pensamentos e histórias. O processo é viajar nas minhas lembranças, e, a partir disso, construir uma coisa nova. Isso nunca foi grande problema para mim. Palavras costumam me vir fáceis, mas elas, ultimamente, não me alcançam. E no meio dessa reflexão metalingüística é que me situo. Para ser bom escritor, não me basta esperar por palavras. Sou eu quem deve achar a melhor delas, que sei que está escondida atrás de algum lugar-comum. Esperando por mim.

domingo, 25 de maio de 2008

Direcionada

Estava deitado na rede da varanda. As páginas do livro se passavam. O sol das cinco coloria de vermelho o que me parecia um raio de alguns centímetros, que, na verdade, eram feitos de milhares de quilômetros. Pôr-do-sol, fim. Fim, começo. Começo, você. As páginas do livro se passavam. O vento batia leve em meu rosto, cortando o calor da tarde. Brisa, agradável. Agradável, prazer. Prazer, você. Lia sobre um homem cego, não, alguns homens cegos. Daí vinham as esposas preocupadas, ladrões, motoristas de táxi, policiais. Todos ficavam cegos. O sol batia leve em meu rosto, brisa agradável, agradável como deitar em rede. Milhares de quilômetros, milhares de cegos, milhares de informações, você. O sol batia em meu olho leve, e tudo ficou branco. Ceguei. Ceguei, pois só penso em você.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Pai, Papai.

João Miguel me surpreendeu num dia quando, no meio de fonemas incabidos e sem sentido, falou “Papai”. Sua primeira palavra, Papai. Não me agüentei de orgulho. O menino tinha menos de um ano e pronunciou assim mesmo, Papai. No fim da mesma semana escapuliu a segunda palavra de sua boca, Pai, e todos ficaram felizes. Era meu primeiro filho, não tinha muita noção da idade em que as coisas acontecem. Um dia ele chegou da escola quieto demais. Pai, o que é veado? É um animal, meu filho. Semana seguinte a pergunta foi pior, Papai, o que é boquete? Não sabia o que responder, desconversei, e nunca mais tocou no assunto. Dia seguinte fui chamado para conversar com a diretora, mas me aliviei ao saber que era para receber elogios pelo meu filho. Ele era o melhor da turma. Com seis anos ele queria ser astronauta, com sete queria ser aviador, com oito falou bem alto “quero ser médico, igual ao vovô!”, com nove não queria ser nada e com dez sua única certeza era de que casaria com a atriz Suri Homes Cruise, mesmo ela sendo treze anos mais velha. Meu amigo Paulo chegou perto dele de manso. Já decidiu o que você quer ser quando crescer? João Miguel olhou bem no fundo dos olhos de Paulo e, eu adoro cinema e adoro psicologia, mas vou acabar fazendo a mesma coisa que o meu pai. Meu amigo deu uma gargalhada. Mas qual dos dois?